Fado declamado…


Uma História imaginária de Manuel Fadista.

Declama

Esta é a história de Manuel fadista,
Uma voz alegre, um grande artista.
Onde quer que cantava, as suas canções,
Em seu redor, juntava multidões.
O seu à vontade, a sua alegria,
Fazia com que toda a gente o aplaudia.
No velho café em que ele cantava,
Rei da Mouraria o povo o chamava!
Mas, num dia triste e nublado,
Cantava Manuel o seu próprio fado.

Canta

O fado é minha paixão,
Meus pesadelos medonhos,
Por não ter meu coração
Junto à mulher dos meus sonhos.

Vivo no mundo sózinho,
Sem amor, desamparado,
Vou trilhando o meu caminho
Só, triste cantando o fado!

Declama

Mas, neste dia, algo aconteceu,
Uma moça esbelta lhe apareceu,
Que ouvindo a sua voz ali entrara,
Uma mulher, tal e qual ele sonhara.
Cabelos sedosos, olhos fascinantes,
Brilhavam sobre ele como diamantes.
Os olhares cruzavam-se de tal maneira,
Entre Manuel e a linda estrangeira,
Que ele, num fado cheio de calor,
Declarou-lhe de pronto o seu Amor!

Canta

Creia meu Anjo, não minto,
Qu’anseio-te minha querida,
É tal o Amor que sinto
Que durará toda a vida.

Prometo-te em juramento,
De ter-te sempre ao meu lado,
Beijar-te a todo o momento,
Na vida seres o meu Fado!

Declama

Aceitando o Amor, a bela apaixonada,
Acompanhou Manuel para a sua morada.
Era a vida para os dois um Paraíso,
Um sonho, uma loucura, um sorriso
E a linda estrangeira, em paixão arde,
Mas, Manuel começara a chegar tarde,
Foi sua querida o avisando
Do caminho erróneo em que ia andando.
Mas, não ouvi Manuel, na sua loucura,
Pensando que o Amor a trazia segura.
Mas, chegando Manuel um dia a alta hora,
Já o seu Anjo querido, tinha-se ido embora.
Tal foi a dor em seu coração
Que Manuel cantou esta canção:

Canta

Ó pomba porque voaste
Do pombal da minha vida,
Só penas atrás deixaste,
Fiquei de alma perdida.

Só e de alma penada,
Partiste, deixando a dor.
Levando em ti entranhada
O fruto do nosso Amor!

Declama

Manuel chorou, mal disse a sua sorte,
Ao ver-se só, como fosse uma morte,
Correu ruas, andou como um louco,
Fora de si, chamando-a pouco a pouco,
Jurou Manuel jamais cantar o Fado!
Abandonou a Terra, para andar embarcado,
Os anos passaram, vendo mar e terra,
Assim lhe foi chegando a neve na serra.
Quis o destino que, pela vez primeira,
O seu barco acostou à Cidade Baleeira.
Numa rua qualquer estava fixado,
Num grande cartaz ”Noite de Fado”
Levado por uma força que o invade,
quis Manuel matar a saudade.
E, ainda Manuel estava na rua,
Já sentia uma voz igual à sua!
E Manuel entrou de pé muito leve,
Como quem vai andando sobre neve,
Sem qualquer barulho e com cuidado,
Porque nesta altura se cantava o Fado!

Canta

Diz minha Mãe, tanta vez,
Quando eu tenho perguntado,
És filho dum português,
Por isso cantas o Fado.

Foi teu pai um grande artista,
Qu’em Portugal encontrei,
De nome Manuel Fadista,
Único homem que eu amei!

Declama

Manuel levanta-se e tentou falar,
A voz embargou-lhe e pôs-se a chorar.
Uma senhora idosa ali presente,
Olhando Manuel de frente a frente
E como levada por um rastilho
Disse para quem cantava:- Olha meu filho,
Aqui está teu Pai e correndo com a vista,
Voltou a dizer: Eis o Manuel Fadista!
Abraços, beijos, grandes emoções,
Alegria plena naqueles corações.
E hoje, Pai e Filho, até de madrugada,
Cantam o Fado e a desgarrada!

Canta

Como é bom ter Pai, ter Mãe,
Junto a nós aconchegados,
No mundo, quem não os têm,
Sentem-se desamparados.

Canto c’o mesmo calor
Em que outrora cantei,
Porque encontrei meu Amor
E o Fruto q’ela me dei!

Fim



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